Tratamento do transtorno unipolar é diferente do transtorno bipolar

Embora a depressão unipolar (DU) e o transtorno bipolar (PB) sejam ambos transtornos do humor, as distinções clínicas entre eles são reconhecidas desde a época de Hipócrates e no DSM-V (Rastelli et al., 2013). A duração média da depressão unipolar é de 6 meses a 2 anos.

Depressão unipolar (DU) ou ‘transtorno depressivo maior’: as mulheres são duas vezes mais propensas que os homens a sofrer de DU. Sentimentos de inutilidade são muito comuns. A idade de início tende a ser mais tardia (depois dos 30 anos) do que na depressão bipolar (tende a ocorrer antes dos 20 anos de vida).

Critérios diagnósticos da depressão unipolar (pelo menos 5 sintomas devem estar presentes):

  • Humor deprimido (tristeza, desesperança, pessoa mais chorosa etc);

  • Diminuição do interesse (anedonia) ou prazer em todas ou quase todas as atividades, na maior parte do dia;

  • Perda ou ganho significativo de peso;

  • Insônia ou hipersonia;

  • Agitação ou retardo psicomor;

  • Fadiga ou perda de energia quase todos os dias;

  • Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva;

  • Capacidade diminuída de concentração ou indecisão;

  • Pensamentos recorrentes de morte.

O diagnóstico incorreto de transtorno bipolar é comum

Transtorno bipolar tipo 1 - Predomínio da mania ou hipomania em relação à depressão (é chamado de bipolar clássico). O paciente passa 30% do tempo deprimido. Pacientes bipolares costumam ter mais hipersonia (dormem 10 horas ou mais ao dia) e sentem mais fome (ganham mais peso durante crises depressivas). Também tende a ter mais lentificação psicomotora. Relata lentidão para pensar, falar, movimentar-se. Mas quando o paciente entre e sai rápido da depressão indica transtorno bipolar e não unipolar.

Transtorno bipolar tipo 2 - Predomínio da depressão. Eutimia em 50% do tempo (paciente não está nem deprimido, nem maníaco), 40% do tempo deprimido e 10% em mania. O paciente chega ao tratamento durante o período depressivo, porém é comum ter resposta atípica a antidepressivos (medicamentos não fazem efeitos, perdem efeito após pouco tempo ou induzem estados de mania ou hipomania).

Embora fenomenologicamente distinto, o transtorno bipolar II (TBII) provou ser particularmente difícil de diferenciar do DU, pois ambos são caracterizados por episódios recorrentes de depressão maior, e os critérios definidos pelo DSM-IV para episódios depressivos são idênticos nesses casos. E, como a maioria dos pacientes com TBII chega ao tratamento quando deprimido, em vez de hipomaníaco, não é surpreendente que seja difícil diferenciar TBII e DU.

Alguns estudos mostraram que até 40% dos pacientes com episódios depressivos recorrentes podem de fato sofrer de TBII. Grande parte dos pacientes não se queixam de hipomania, pois ela é sentida como egossintônica ou prazerosa. Pode apresentar hipersexualidade, o que não é comum na depressão unipolar.

O TBII também pode ser confundido com transtorno de personalidade limítrofe, transtorno de ansiedade ou transtorno de ajustamento, levando a atrasos no diagnóstico correto de até 10 anos. Isto tem implicações clínicas importantes, pois os tratamentos para os dois distúrbios diferem e os tratamentos usados ​​para DU podem exacerbar os distúrbios bipolares, resultando em aumento do risco de mudança maníaca ou aceleração do ciclo ou geração de um estado misto de humor.

Em pacientes com transtorno bipolar, há alta penetrância genética de transtorno de humor (depressão, bipolaridade) nas últimas 3 gerações. Fora isso, aqueles com transtorno TBII são mais propensos a ter uma idade mais jovem de início da depressão, maior frequência de pensamentos suicidas, maiores taxas de hipersonia e maiores níveis de agitação psicomotora, em comparação com pessoas com DU.

Transtorno Bipolar Misto

As fases mistas do transtorno bipolar são caracterizadas pela combinação dos sintomas das duas. Por exemplo, a pessoa apresenta sintomas que definem a mania/hipomania, mas também sintomas depressivos. E o contrário também: um episódio depressivo associado a pelo menos três sintomas da mania. Há maior risco de abuso de álcool e calmantes (benzodiazepínicos) e maior chance de suicídio.

Indícios de suicidalidade:

  • Pensar algo como: “seria mais fácil se eu morresse”

  • Dizer: “eu quero morrer”

  • Planejar o suicídio

  • Procurar meios e locais para o suicídio

  • Tentar suicídio

Reconhecer estas questões todas é o primeiro passo para que o especialista consiga tratar os seus pacientes. O gerenciamento dos transtornos de humor e, especialmente, do transtorno bipolar é complexo. Para os profissionais da área recomendo as diretrizes para o tratamento de pacientes com transtorno bipolar (Yatham et al., 2018).

Em relação à nutrição estudos mostram que a dieta cetogênica ajuda um grupo de pacientes, uma vez que a bipolaridade tem sido associada a uma maior prevalência de metabolismo de glicose prejudicado. Por exemplo, aqueles com resistência à insulina (RI) ou diabetes tipo 2 são mais propensos a experimentar ciclos rápidos de humor, menos propensos a responder ao lítio e mais propensos a sofrer um curso de doença mais progressivo. A RI pode comprometer a integridade da barreira hematoencefálica (BHE) em pessoas com doença bipolar (também pode ocorrer na depressão unipolar e esquizofrenia).

Os mecanismos propostos pelos quais a desregulação da glicose e da insulina pode desregular o humor incluem estresse oxidativo prejudicial que, por sua vez, pode prejudicar a função mitocondrial, inclusive de neurônios. A dieta cetogênica favorece o metabolismo mitocondrial e pode aumentar os níveis cerebrais de glutationa, uma importante antioxidante para o cérebro (Danan et al., 2022).

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/