Brasil exporta tecnologia de pesquisa em nutrição para o resto do mundo

Durante o século XX, os padrões alimentares nos países desenvolvidos mudaram radicalmente como resultado do crescimento econômico, aumento do poder de compra das pessoas, progresso na tecnologia de alimentos, mudanças no ambiente alimentar, marketing de alimentos e transformação nos estilos de vida. As rápidas mudanças sociais, econômicas, culturais e ambientais introduziram adaptações relevantes no estilo de vida e contribuíram para a globalização e o aumento do uso de alimentos ultraprocessados ​​prontos para consumo. Ao mesmo tempo, o aumento do excesso de peso e obesidade tem sido observado em todo o mundo.

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Os alimentos ultraprocessados são aqueles que passaram por técnicas e processamentos com alta quantidade de sal, açúcar, gorduras, realçadores de sabor e texturizantes. Estes alimentos possuem um perfil nutricional danoso à saúde. Por serem hiperpalatáveis, ou seja, acentuam muito o sabor, danificam os processos que sinalizam o apetite e a saciedade e provocam o consumo excessivo e “desapercebido” de calorias, sal, açúcar, etc.

Os alimentos ultraprocessados também são pobres em micronutrientes (vitaminas, sais minerais, água e fibras), o que impacta negativamente a saúde favorecendo o desenvolvimento de várias doenças crônicas como diabetes, problemas cardiovasculares, Alzheimer e muitos tipos de câncer. Vários pesquisadores defendem que tais produtos nem deveriam ser considerados como alimentos.

Dados de pesquisas epidemiológicas no Brasil, como a Vigitel 2014 (Inquérito que avalia fatores de risco para doenças crônicas), revelam que no Brasil a prevalência de excesso de peso na população ultrapassa 50,0%. Pior, 17.5% dos brasileiros são obesos, 6.9% tem diabetes e 24,1% hipertensão. Estes números são, em grande parte, provocados pelo enfraquecimento dos padrões alimentares tradicionais e pelo consumo exagerado de alimentos ultraprocessados.

O mesmo acontece em outros países e em todas as faixas etárias. Em Portugal, a prevalência de sobrepeso e obesidade atingiu 53% da população adulta em 2014. A hipótese de que a ingestão de alimentos ultraprocessados ​​comprometa a nutrição e a qualidade da dieta e contribua para a epidemia da obesidade vem sendo testada em muitos países.

O projeto UPPer estuda os padrões de consumo de alimentos ultraprocessados ​​em Portugal e está integrado a pesquisa internacional em que participam outros 7 países (Austrália, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Reino Unido e EUA). O programa internacional é coordenado pelo centro de pesquisa brasileiro NUPENS da USP.

Os interesses de pesquisa do NUPENS permanecem são, em essência:

1. Desenvolver alternativas metodológicas que orientem e facilitem a realização de pesquisas populacionais em nutrição e saúde, bem como a implementação de sistemas para identificação de tendências temporais.

2. Elaborar e testar modelos analíticos referentes à epidemiologia de problema nutricionais e de saúde, aplicando-os em particular ao estudo das relações de interdependência entre nutrição e saúde.

3. Formular intervenções e propostas de avaliação de efetividade que se ajustem à epidemiologia dos problemas estudados e à realidade da organização dos programas e serviços.

Estudo com mais de 450.000 pessoas de 10 países europeus mostrou que a redução de 10% dos alimentos ultraprocessados (refrigerantes, balas, sorvetes, alimentos defumados etc) reduz risco de câncer de cabeça, pescoço, esôfago, intestino, mama... (Kliemann et al., 2023).

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, com mestrado em nutrição humana, doutorado em psicologia clínica e cultura/ensino na saúde, pós-doutorado em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em práticas integrativas em saúde. Para contratar envie uma mensagem: http://andreiatorres.com/consultoria/