Não tenho Instagram

Sempre me perguntam qual é minha conta no Instagram, mas não tenho. Já tive e até gostava bastante do aplicativo. Sou uma pessoa visual e ver imagens de roteiros turísticos, acompanhar o trabalho de fotógrafos, artistas visuais, ativistas ambientais, as paisagens da National Geographic, além de gatos, cachorros e bebês fazendo fofurices era um bom passatempo. Então, durante o doutorado resolvi dar um tempo da minha conta. Queria aproveitar meu pouco tempo livre com outras atividades, como passeios pela cidade, jantares com os amigos, yoga e meditação.

Depois da defesa ensaiei voltar ao Instagram mas o mesmo já não tinha mais o mesmo charme. As coisas legais continuavam lá mas o aplicativo havia sido invadido por propagandas e pessoas que passavam o dia falando de dieta, de exercício, do próprio corpo sarado, do melhor shake para emagrecer, do mais novo suplemento para ganhar massa magra. E o pior, como sou nutricionista e fui professora universitária por mais de 10 anos frequentemente era marcada em publicações de colegas e ex-alunos. Alguns posts eram muito bons mas a maioria começou a me dar desespero. Profissionais competentes (e outros nem tanto) haviam se dobrado às pressões do mercado e agora também mostravam suas séries da academia, sua barriga tanquinho e suas frases de efeito em troca de mais seguidores. Sim, profissionais de saúde também possuem barrigas, também fazem atividade física, também podem ser sarados, também querem ser admirados, elogiados, amados. Mas qual é o papel destes profissionais em um mundo que já valoriza em excesso a aparência?

De fato, novos estudos vem mostrando que plataformas como o Instagram, apesar de seus inúmeros pontos positivos, também tem um lado perverso. Pesquisadores conseguiram demonstrar que crianças e adolescentes expostos às imagens de celebridades, blogueiras fitness, fotos de antes e depois de dietas (publicadas por leigos ou profissionais) possuem maior risco de desenvolverem desordens alimentares e transtorno dismórfico corporal

Jovens têm maior probabilidade de sentirem-se tristes, frustrados, isolados, com menor auto-estima ou deprimidos após compararem a própria vida com aquela mostrada pelas pessoas no Instagram.  Pesquisa da Universidade de Londres mostrou que o uso do Instagram pode ser um dos gatilhos para a ortorexia nervosa (obsessão pela alimentação saudável). Passar o dia olhando receitas de sucos detox ou posturas de yoga pode parecer inofensivo, mas para algumas pessoas é o gatilho para o desenvolvimento de um transtorno mental. A inspiração para comer mais frutas e verduras, reduzir carboidratos simples, glúten, laticínios ou qualquer outro grupo desnecessariamente e praticar mais atividade física pode esconder transtornos obsessivos compulsivos, perfeccionismo, culpa. A ortorexia também é alta entre nutricionistas, educadores físicos e instrutores de yoga (Turner & Lefevre, 2017). Para alguns, olhar fotos de comida  também pode interferir no prazer de comer, principalmente quando o mais importante passa a ser a foto, o posicionamento adequado do prato e as inúmeras edições em busca de mais likes (curtidas). Não conheço pesquisa no Brasil, mas nos EUA 54% das pessoas usam o Instagram justamente para mostrar o que estão comendo e 42% para ler dicas sobre comida e alimentos saudáveis.

As comissões de ética dos conselhos de medicina e nutrição não permitem a exposição de pacientes com fotos antes e depois de dietas, procedimentos estéticos ou cirurgias mas frequentemente é o que se vê.  Se você tem filhos, será que estas influências estão sendo as melhores para eles? Vale a pena pelo menos conversar. Afinal, nem todo mundo deseja sair do aplicativo. Sugiro algumas reflexões, que valem para você e para as pessoas que ama. As perguntas podem ser adaptadas, dependendo da idade da pessoa com quem você está conversando:

  • Que tipo de pessoas você gosta de acompanhar?
  • Você gosta de olhar fotos de pessoas fazendo dietas, em forma, exercitando-se? Por que?
  • O que você sente ao se comparar com pessoas que parecem ter "corpos perfeitos"?
  • Você passa mais de 3 horas por dia pensando em comida?
  • Você passa muito tempo pensando na sua aparência? Estes pensamentos interferem em sua vida? De que forma?
  • Você liga para o que os outros vão falar a respeito da sua aparência?
  • Você passou a pensar mais em comida ou no formato do próprio corpo ao entrar no Instagram? Sua qualidade de vida melhorou ou piorou?
  • Você segue as dicas de dieta ou exercícios de pessoas da internet?
  • Você se pune se comer algo "fora da sua dieta"?
  • Você deixa de viver a vida para seguir o que as pessoas estão fazendo no Instagram? 
  • Sua autoestima aumentou ou piorou depois de começar a seguir certas pessoas?
  • Você critica pessoas que não se alimentam apropriadamente ou não seguem determinada dieta/plano de exercícios?
  • Você critica as pessoas que não tem a mesma força de vontade que você?
  • Sua dieta/estilo de vida te isola?
  • Você conseguiria ficar uma semana sem usar nenhuma rede social? Gostaria de tentar? O que podemos fazer nos horários livres? 

Entrar em contato com o mundo real pode ser mais divertido do que você pensa. Recomendo um detox eventual de redes sociais. Você pode até gostar!

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, mestre em nutrição humana, doutora em psicologia clínica e cultura, pós-doutora em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em Coaching e Yoga. Para contratar clique na aba consultoria no topo da página. Obrigada por visitar esta página!
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