Alzheimer: um novo tipo de diabetes?

Existe um componente genético para o Alzheimer. Contudo, o componente ambiental é muito importante. Existem evidências de que o Alzheimer se comporta como um diabetes do cérebro. Se uma pessoa tem um estilo de vida precário acaba tendo um risco muito maior de desenvolvimento de diabetes do que a própria genética. Até porque a doença parece começar a se desenvolver muito lentamente, a partir dos 30 anos e não quando nos tornamos velhos. No Brasil o Azheimer atinge cerca de 1,2 milhão de pessoas, sendo que apenas a metade se trata. A cada ano, surgem cerca de 100 mil novos casos e a estimativa da Associação Brasileira de Alzheimer é  que esse número dobre até 2030. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que até 2050 o número de casos aumente em até 500% em toda América Latina.

Atualmente não há cura para a doença e muitas terapias são pouco eficientes. Por isto, a prevenção é crítica para preservar ao máximo o sistema nervoso. Estudos mostram que o alto consumo de carboidratos simples, ácidos graxos do tipo ômega-3, o baixo consumo de antioxidantes, a inatividade física e  a glicação de proteínas do cérebro podem resultar em declínio cognitivo severo atrapalhando as atividades de vida diárias.

O cérebro é extremamente vulnerável, sensível a uma série de insultos ambientais. O principal deles parece ser os altos níveis de insulina e a existência de uma genética própria (dois alelos E4 para o gene da apolipoproteína E - ApoE), que influencia o metabolismo lipídico. A ApoE é tão ligada ao Alzheimer que acabou sendo apelidada de gene da susceptibilidade. Pessoas heterozigotas para este gene (possuem um alelo) possuem um risco para Alzheimer 5 vezes maior. Já homozigotos (possuem 2 alelos) possuem um risco de 50 a 90% para a doença. Apesar disso, a genética sozinha não parece ser suficiente para o desenvolvimento do Alzheimer. Por outro lado, a insulina aumentada aumenta em 43% o risco de Alzheimer, independentemente do status de ApoE. Como a hiperinsulinemia está presente em mais de 40% das pessoas acima de 40 anos alterações no estilo de vida são consideradas fundamentais.

Pesquisadores da área acreditam que a conexão entre alterações na sinalização insulínica, hiperglicemia e Alzheimer é tão forte, que a doença muitas vezes é denominada "diabetes tipo 3". De fato, sabemos que o diabetes tipo 2, caracterizado por resistência à insulina, é outro fator de risco para o Alzheimer. As mudanças patológicas que ocorrem no cérebro de pessoas com Alzheimer parecem resultar da hiperglicemia. Não é de se estranhar então que pacientes diabéticos tipo 2 que carregam alelos ApoE4 são os que possuem maior risco de desenvolvimento de Alzheimer.

No Alzheimer há acúmulo de placas de beta-amilóide no cérebro. Observam-se também  emaranhados neurofibrilares, frutos da hiperfosforilação da proteína tau, perda de neurônios do hipocampo, redução na produção de acetilcolina e menor uso de glicose em regiões do cérebro associadas à memória e aprendizagem. Todas estas mudanças podem ser sequelas da desregulação metabólica gerada pela hiperinsulinemia.

A captação de glicose pelos transportadores GLUT1 e GLUT3 no cérebro é independente da ação da insulina. Contudo, o transportador GLUT4, também presente em algumas células do cérebro e na barreira hematoencefálica dependem de insulina. No Alzheimer muitas vezes observa-se a combinação de excesso de insulina no plasma e queda da insulina no sistema nervoso central (Convit, 2005). Isto deve-se em parte aos efeitos do beta-amilóide e, em parte, ao alto consumo de carboidratos refinados ao longo da vida. Altas concentrações de insulina na periferia parecem suprimir a utilização de glicose no cérebro. O estresse oxidativo também parece aumentar no cérebro, neste caso. As membranas dos neurônios são ricas em ácidos graxos poliinsaturados e colesterol, altamente susceptíveis à oxidação por radicais livres. 

As mitocôndrias presentes nas células do sistema nervoso são as maiores produtoras de radicais livres no cérebro. Como a metabolização de glicose pelas células está prejudicada recomenda-se uma dieta de baixo índice glicêmico a fim de restaurar a sensibilidade à insulina (Henderson, 2008Krikorian et al., 2012; Lange et al., 2016). Deve-se evitar alimentos processados e farináceos. Alguns suplementos também vem sendo estudandos no sentido de reduzir o estresse oxidativo e normalizar o metabolismo da glicose: ômega-3, picolinato de cromo (Lamson & Plaza, 2002), triglicerídeos de cadeia média (Henderson et al., 2009), L-carnitina (Bais, Kumari & Prashar, 2016), Coenzima Q10 (Yang et al., 2016), antioxidantes e vitamina B12 (Komurcu et al., 2016).

Além disso, destaca-se a importância da atividade física para a prevenção do diabetes e do Alzheimer. O exercício induz o recrutamento do transportador GLUT4 melhorando a sensibilidade à insulina. 

Dra. Andreia Torres é Nutricionista, especialista em nutrição clínica, esportiva e funcional, mestre em nutrição humana, doutora em psicologia clínica e cultura, pós-doutora em saúde coletiva. Também possui formações no Brasil e nos Estados Unidos em Coaching e Yoga. Para contratar clique na aba consultoria no topo da página. Obrigada por visitar este blog.
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